8 de janeiro de 2007

a cama

Patricio Suarez


deitada só. num canto. no canto mais afastado do meu lado da cama. sinto o cheiro do leito desarrumado onde estiveste. estivemos.

estivemos ou sonhei? não faz diferença. vivo um tempo onde pouco se distingue já a realidade, da vida tranformada meio ao sono.

tinhas entrado de rompante nessa noite. não vinhas para ficar e eu sabia. sorriste. sorri-te. não conversámos muito. estavas meio acanhado, à laia de criança travessa antes de disparar a nova traquinice. eu tremia de qualquer coisa que sabia a esperança mas não devia ser. esqueci-lhe o pulsar há muito tempo.

a cama estava lá. envelhecera como eu. na espera ou na ausência de calor.

a cama sabia histórias vazias já de arroubos de prazer. mas estava lá. a cama.

falei-te de lugares antigos. paladares. raízes. ervas de aroma inimitável. rias. crescia-te no cabelo o cheiro dos gostos que eu lembrava. o meu corpo acordou.

- tira os óculos.

- não vejo.

- antes assim...

eu tímida de novo. cicatrizes de partos que não queria mostrar.

beijei-te os olhos.

a cama. a cama esperava. pouco arrumada. fria. como agora.

*

vi-te sair a porta. não doeu. na minha idade a dor é relativa. vem. instala-se. acomoda-se. a gente vai-se habituando a ela e passa a fazer parte da espera.

como a cama. agora.


Comments:
não, não estragaste, pelo contrário!

gostei bastante!!

bom dia
 
METAMORFOSE (32)
Não foram sonhos.
Foi verdadeiro.
Foram dávidas.
Fragmentadas, na cama.
A realidade actual.
Foi bem aceita.
Passaram os anos.
Isso que importa.
Sublime espera.
Recepção escaldante.
Corpos ávidos.
De amor fecundado.
Dote dos Deuses.
Para perdurar ?
Foi uma excepção ?
Não é importante.
Vamos saborear.
E solenizar.
Este harmonioso vácuo.
Da nossa solidão.
poetaeusou(adaptador)
 
:)

Obrigada.
 
Belas palavras para tantos sentimentos. A paixão em cores por inventar.
Gostei muito.
Bj
Gui
 
Não canso de repetir que escreves muito bem.

Beijinhossss
 
Gosto muito! Que extraordinária forma de descreveres o "acordar" de um corpo...

Mesmo ainda "atordoado" com as tuas palavras, lembras-me o José Carlos Ary dos Santos num poema lindíssimo e que te "dou" alguns excertos:

"Meu corpo,
é um barco sem ter porto,
tempestade no Mar Morto,
sem ti!
.........

Sozinho,
nesta cama que é só minha
espero o teu corpo ardente,
só meu!

Meu corpo,
é apenas um deserto,
quando não me encontro perto,
de ti!"

Beijos... e porque não ouro, incenso e mirra?
 
Belíssimas as palavras.
Beijos
 
Que a Comadre escreve bem já eu repeti 100 vezes e nunca são demais, para quem escreve tanta beleza
 
Esqueci-me de assinar. O anónimo que fala do José Carlos Ary dos Santos,é o Aramis.

Beijos Madalena
 
:)

Eu sabia. Conheço-te o estilo e a toada.

:D

Beijos aramis.
 
- tira os óculos.

- não vejo.

- antes assim...






(tão belo. tão realista, que faz doer!)

bj.
I.
 
Gosto da foto do Silvestre!







(Vi-a no Flickr mas nunca consigo comentar lá!) :)
 
Isabel,

Para comentar no Flickr tem de inscrever-se.

É fácil.

Obrigada

Bj
 
Lamento mas esta foto foi alterada por razões que me ultrapassam.
 

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